ENTREVISTA COM A BANDA INOUTSIDE.

A banda de rock Inoutside lançou, em agosto, o videoclipe da música “Whose blood is that?”, um protesto em tom de indignação contra a opressão policial. Gravado em Juiz de Fora (MG), na Fábrica de Tecidos São João Evangelista, o vídeo mostra o grupo performando o single, que faz parte do álbum de estreia do Inoutside.

A sonoridade da banda me faz sentir que, mesmo lutando constantemente, precisamos seguir em frente e lutar ainda mais. Suas músicas são hinos que me dão esperança e força para continuar diante de tantas coisas que acontecem à nossa frente, e muitas pessoas escolhem apenas fingir que os limites não são ultrapassados o tempo todo. Me faz pensar na minha adolescência, quando a força vinha logo ao acordar. Hoje, com a idade que tenho, às vezes bate aquele sentimento de não poder fazer nada. Mas ouvir o som da banda Inoutside reacende essa força e a vontade de lutar.

crédito Pedro Soares

Inoutside é um grupo de rock alternativo autoral composto por mulheres LGBTQIA+. A formação inclui Mariana Campello (guitarra e voz), Leticya (bateria) e Bruna Odas (baixo e voz). Com uma sonoridade intensa e visceral, o power trio apresenta letras que abordam temas sociais, culturais, desigualdade, preconceitos, feminismo e o próprio ser artista em meio ao capitalismo selvagem. Fundada em 2012, na cidade de Vitória (ES), o grupo migrou para Juiz de Fora (MG) e hoje é referência na cidade por ser a única banda de rock autoral formada apenas por mulheres.

Banda Inoutside, é uma honra ter vocês aqui no site Maah Músic. Para começar essa entrevista, queremos fazer uma pergunta que já é clichê por aqui: o que a música representa na vida de cada uma de vocês?

Lets: A música faz parte da minha vida desde que eu era criança. Desde cedo, tenho contato com instrumentos e isso moldou muito da minha personalidade. A música é um escape quando as coisas estão difíceis, ao mesmo tempo que é uma forma de mostrar o que eu sinto. Definitivamente, é algo que não conseguiria viver sem.

Mari:Pra mim não é diferente nesse ponto, desde pequena eu sempre quis fazer música e estar envolvida com ela. Quando conheci o rock isso só aumentou, e foi aí que a música passou a ser algo ainda maior pra mim, um lugar de expressão, uma parte da minha identidade, vi que eu queria (e precisava) fazer isso pra sempre e esse sentimento nunca mudou.

Bruna:Sempre gostei muito de música e, apesar de não ter uma influência direta na família ou algo do tipo, sempre soube que trabalharia nessa área. Compor, arranjar e criar de uma forma geral me realizam! Poder se expressar através da música é gratificante. O que a gente faz no palco e o que chega nos fones são a culminância de muito trabalho, escolhas diárias e influências que nos perpassam todo dia.

crédito Pedro Soares

Como foi a transição de Vitória para Juiz de Fora? O que essa mudança trouxe para o som e a identidade da banda?

Mari: Num primeiro momento foi tudo bem confuso, a gente ainda era jovem e imaturo, mas com muita vontade de fazer música. Ficamos com medo da banda não aguentar, mas demos nosso jeito e nos inserimos na cena de juiz de fora, onde num primeiro momento fomos muito bem acolhidos e nos vimos com mais oportunidades de mostrar nosso trabalho. Mas a grande virada que juiz de fora trouxe realmente foi com a mudança pra uma formação 100% feminina, onde acabamos por alinhar nossas ideias e propostas, formando uma identidade mais solida, tanto musicalmente quanto nos ideais e valores, visto que percebemos que ser mulher na música era necessariamente uma posição política, e vestimos essa camisa pra lutar pelo nosso espaço e falar das nossas vivências.

Ser a única banda de rock autoral formada apenas por mulheres em Juiz de Fora traz quais desafios e conquistas?

Mari: Infelizmente ainda estamos num momento em que este fato traz bem mais desafios que conquistas. Ser autoral já dificulta muita coisa, em Juiz de fora a cultura do tributo e do rock saudosista é muito grande, e consequentemente é uma cena muito conservadora, e nós sermos mulheres acaba sendo a cereja do bolo. No mínimo podemos falar que precisamos fazer o dobro (ou mais) de esforço para conquistar qualquer coisa, há uma resistência estrutural em nos abrir portas, é como se nossos mais de 10 anos de estrada não fossem suficientes para provar nosso profissionalismo e bom trabalho. Não somos colocadas como iguais a nenhuma banda com homens que exista na cena, tenha ela surgido ontem. Somos lembradas apenas no mês de março, para surfar na onda do mês da mulher e vender uma imagem inclusiva. Sério, a diferença na frequência de convites é gritante nesse mês, mas não a ponto de necessariamente oferecerem oportunidades que valorizem nosso trabalho, na maioria das vezes não somos devidamente (ou sequer) remuneradas. No fim é no mínimo ofensivo. Isso fora sermos distratadas por profissionais das casas como técnicos de som e luz com uma frequência quase absoluta, sempre há, no mínimo, uma inferência de que não sabemos o que estamos fazendo, e muitas vezes o resultado do nosso trabalho sai prejudicado por não sermos levadas à sério. Claro que há algumas coisas boas, já houveram várias mulheres e meninas que nos disseram se inspirar em nós para fazer sua própria música, que nos admiram por estarmos lutando pelo nosso espaço apesar da resistência, e isso é o que mais nos move a continuar abrindo esse matagal com nosso próprio facão.

Como funciona o processo de composição entre vocês? Existe uma dinâmica fixa ou tudo flui de forma espontânea?

Mari: O processo em geral é bem fluido, há épocas que algumas músicas saem de uma maneira e em outras de diferentes formas. A princípio eu (mari) sempre trouxe mais letras, mas isso mudou com a chegada da Bruna que tem trazido suas próprias composições e contribuições, e agora juntas temos chegado a resultados cada vez mais interessantes, haja visto nosso próximo EP totalmente em português. Quanto a parte dos arranjos, todas sempre contribuímos, e assim a música vai tomando sua forma final, filha de influências musicais completamente diferentes e misturadas que cada uma de nós traz.

Quais são as principais influências musicais que moldam o som da Inoutside?

Mari: Isso sempre foi uma grande mistureba hahah, há influencias que temos em comum, como Paramore, Far From Alaska, Linkin Park, Pitty, Fresno e Supercombo. Mas o que acaba gerando nosso som final é justamente nossas influencias mais diferentes, enquanto eu trago algumas coisas como Royal Blood, Beartooth, The Warning, Bring me the horizon… a Lets acaba trazendo mais elementos do rock dos anos 2000, não só do rock como do Pop e pop rock também, como Evanescence, The 1975, Chappell Roan, Taylor Swift, e a Bruna trazendo influências da música brasileira como Los Hermanos e Marisa Monte. No fim é essa mistureba toda sem muito preconceito que faz nascer o som da Inoutside.

crédito Pedro Soares


Como vocês equilibram a intensidade sonora do rock com letras tão profundas e críticas?

Lets: Acredito que a sonoridade e as letras se complementam. O rock, em sua origem, é político e é um gênero que carrega lutas sociais. Então, para nós, faz sentido trazer críticas nas nossas músicas com essa sonoridade. O som pesado pode até, de certa forma, intensificar as emoções que queremos trazer nas músicas.

Mari: Concordando com a lets: no fim, é algo que surge bem naturalmente. O rock além de tudo tem esse efeito catártico, ele te faz colocar pra fora tudo o que você precisa.

Como surgiu a ideia de revisitar e fortalecer “Whose blood is that?” com uma nova versão e clipe?

Lets: Transformar “Whose blood is that?” em clipe é uma ideia antiga, desde quando começamos a trabalhar no álbum “Dare the night”. É uma música que mostra muito sobre nossas críticas em relação a temas de violências sistêmicas como racismo, violência policial, tragédias ambientais fruto do capitalismo selvagem, enfim. É uma música política. Com a oportunidade do edital estadual da Lei Paulo Gustavo, finalmente conseguimos tirar a ideia do papel e reforçar a mensagem que queríamos.

Mari: Regravar a música em si foi um caminho pra que a mensagem dela junto com o clipe tivesse o peso necessário. Aproveitamos pra agregar os vocais da Bruna pra isso, visto que ela não estava na banda na gravação original, e agora conseguiria contribuir pra dar a mensagem que queríamos.

Por que escolheram a Fábrica de Tecidos São João Evangelista como cenário para o vídeo?
Mari:Na verdade foi um grande acaso, nós estávamos procurando lugares com essa estética industrial, urbana e de certa forma desgastada. Também precisávamos de um lugar grande, não só pela estética, mas também pela logística para conseguirmos gravar tudo em uma única diária. Por acaso a fábrica estava passando por mudanças e estava com alguns galpões bem antigos e usados vazios, e este tinha exatamente o tamanho e visual que precisávamos. Foi uma sorte.

Qual foi o maior desafio na produção e direção do clipe?

Mari:olha, é difícil escolher um desafio como maior.. haha. É um processo como um todo bem desafiador. Coordenar toda a equipe durante o processo para que tudo fique o mais próximo de como a ideia foi concebida é particularmente bem difícil, considerando as questões práticas como conseguir objetos de cena, equipamento, figurino e locação e também as muitas ideias que surgem quando se trabalha em equipe, muitas delas sendo essenciais para o resultado, mas é importante tomar cuidado para não nos perdermos da essência que propusemos no início. Na parte prática da direção na diária da gravação é bem desafiador coordenar todo o set enquanto buscamos juntos traduzir as ideias escritas em imagens de fato de forma que fiquem fieis à ideia. Além disso nesse set em especial estávamos tratando de assuntos muito delicados e exigiu de nós (eu em especial comandando isso) muito respeito e dedicação para imprimir na tela a seriedade e o peso que queríamos. É bom lembrar que nenhuma de nós é atriz! Hahaha

crédito Pedro Soares

A banda aborda temas como opressão policial, feminismo e capitalismo. Como vocês lidam com o impacto político dessas mensagens?

Mari: a repercussão é sempre diferenciada quando falamos de assuntos polêmicos. Mas é isso que se espera, queremos fazer as pessoas pensarem. Houveram muitos elogios à nossa coragem, mas também tivemos muitas críticas, inclusive de maioria violenta e falaciosa (como “vai lavar uma louça” ou “os verdadeiros bandidos vocês não criticam” etc) infelizmente, de pessoas que não concordam com o que protestamos. É no mínimo curioso (e problemático) pensar que há quem não concorde em protestar contra a violência, seja ela qual for.

Como é ser uma banda LGBTQIA+ no cenário do rock alternativo brasileiro?
 
Mari: Da mesma forma que ser mulher nos fecha portas, imagina sermos mulheres LGBTQIA+. É muito comum as poucas “oportunidades” que nos sãos dadas esperarem de nós (uma banda de mulheres) um tipo específico de performance, uma que agrade ao olhar masculino. Ao perceber que não performamos isso, e ainda levantamos no palco a bandeira LGBTQIA+ (literalmente), há uma resistência ainda maior, olhares tortos, julgamentos. Já tocamos fora da nossa bolha para públicos completamente desconfiados e sérios. É um desafio a mais. E só fica mais claro como é muito necessário que continuemos. Outras bandas seguem fazendo o mesmo e abrindo caminho para nós, assim como esperamos abrir caminho para outros, e esperamos que fique cada vez mais fácil. Em compensação, há sempre quem compre a ideia justamente por ter essa coragem e demonstrar que existimos e resistimos. E é por essas que ainda estamos aqui.

Como está sendo a produção do novo EP com músicas em português? Podemos esperar alguma surpresa sonora?

Mari: o processo é lento, considerando que o sistema capitalista exploratório nos rouba muito do nosso tempo e energia de produzir. Ainda assim, estamos quase nos finalmente, encaminhando para a finalização dos arranjos e gravações. E sim com certeza podem esperar novidades sonoras. Agora somos uma banda de mais compositoras, mais vocalistas e novas influencias, além é claro da nova língua. Isso tudo junto promete bastante.

Qual foi o momento mais marcante que viveram com fãs ou no palco até hoje?

Lets: Para mim, foi meu primeiro show com a banda, no início de 2020. Por ser o primeiro, já tinha tudo para ser lembrado, mas houve um momento muito representativo: depois de tocarmos, uma moça veio falar conosco e apresentou a filha dela, chamada Paola, que tinha uns 8 anos na época. Tinha sido o primeiro show de rock da Paola e ela ficou super empolgada por ver uma banda só com mulheres. Com isso, tivemos o impacto do quanto precisamos de mais mulheres no rock e do quanto isso faz diferença na vida de meninas que querem conhecer mais sobre o gênero ou mesmo de instrumentos musicais. Ter figuras de minas na cena influenciam.

Que mensagem gostariam de deixar para quem está conhecendo a banda agora e para os fãs que estão com vocês desde 2012?

Lets: Para quem acompanha a gente, nós temos uma gratidão imensa. Tem uma galera que está sempre junto, vai nos nossos shows, acompanha nosso trabalho de perto, e isso faz toda a diferença para uma banda independente como a nossa. Esse apoio é fundamental para a gente seguir nesse caminho. E para quem está chegando agora, vai encontrar um som que mostra toda a nossa identidade como três mulheres tentando fazer música nessa sociedade machista e capitalista. É uma luta que a gente sempre travou e sempre vai travar, e quem quiser entrar nessa com a gente, é bem-vindo.

Mari: adicionando a isso, preparem-se, vem muita coisa de peso nova por ai, muito em breve!

Que tal finalizar a entrevista com música? Então bora para sua plataforma digital, mas antes não esqueça de seguir a banda nas redes sociais e fica de olho nas novidades:

Instagram: @inoutsideoficial

Youtube: Inoutside Oficial (https://www.youtube.com/@inoutsideoficial


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Maah Music

Sou Maah Music, apaixonada por música a ponto de torná-la tão essencial quanto respirar. O meu site tem como missão destacar a riqueza e a diversidade de bandas e artistas de todo o mundo. Aqui, você encontrará informações, entrevistas exclusivas, inspiração e muita diversão. Bem-vindos ao universo do Maah Music, onde a música é o centro de tudo!

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